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sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Natureza misteriosa da tecnologia de amplificação do babaca



Não adianta pensar no mundo como sendo dividido entre imbecis e não imbecis ou, se achar melhor, entre trolls e vítimas.
Cada um de nós tem um troll interior. Antigamente, antes de todo mundo fazer isso, era mais fácil notar como é bizarro quando seu troll interior se manifesta. É como se um alienígena horrível — do qual você havia esquecido há muito tempo — vivesse dentro de você. Não deixe seu troll interior assumir o controle! Se isso sempre acontece em uma situação específica, evite essa situação! Não importa se é uma plataforma on-line, um relacionamento ou um trabalho. Seu caráter é como sua saúde, mais valioso do que qualquer coisa que se possa comprar. Não o jogue fora.
Isso é um problema tão comum que deve ser um lance profundo,
primitivo, uma tragédia de nossa herança, um defeito estúpido no cerne da condição humana. Mas dizer isso não nos leva a lugar nenhum. O que é exatamente o troll interior?
Primeiro de tudo, às vezes o troll interior assume o controle, às vezes não. A hipótese em que trabalho há muito tempo é a de que existe um interruptor no fundo de cada personalidade humana que pode ser ligado em dois modos.
Somos como os lobos. Podemos ser solitários ou fazer parte de uma alcateia. Por isso chamo esse mecanismo de interruptor Solitário/Alcateia. Somos mais livres na condição de lobos solitários. Somos cautelosos, mas também capazes de ter mais alegria. Pensamos por nós mesmos, improvisamos, criamos. Vasculhamos, caçamos e nos escondemos. Uivamos de vez em quando por pura exuberância.
Por outro lado, quando integramos uma alcateia, as interações com o outro se tornam a coisa mais importante do mundo. Não sei até que ponto isso acontece com os lobos, mas entre as pessoas é uma situação drástica. Quando estão fechadas em uma estrutura de poder competitiva, hierárquica, como uma corporação, as pessoas podem perder de vista a realidade daquilo que estão fazendo, porque a luta imediata pelo poder assume um vulto maior do que a própria realidade.
O exemplo que assume o maior vulto hoje é a negação das mudanças
climáticas. Na comunidade científica e entre praticamente todas as nações do mundo, existe o consenso de que devemos confrontar as alterações do clima, e ainda assim um grupo pequeno, mas poderoso, de empresários e políticos não concorda. Eles encaram a ciência a respeito da mudança climática como uma trama para atacar sua riqueza e seu poder. É uma ideia absurda, uma insensatez que só é possível quando estamos fechados em uma compreensão do mundo que só leva em conta as lutas de poder, excluindo a realidade mais ampla.
Para uma criatura do mundo técnico, é reconfortante destacar um exemplo como esse, porque ele nos livra de suspeita, mas comunidades científicas também podem sofrer com o interruptor posicionado no modo Alcateia. Por exemplo, o físico Lee Smolin documentou o modo como teóricos das cordas exerceram um domínio coletivo durante algum tempo no mundo da física teórica. O padrão é encontrado sempre que pessoas formam grupos.
Gangues de rua se valem apenas de conceitos de alcateia, como
territorialidade e vingança, mesmo que estes destruam suas vidas, famílias e bairros. O modo Alcateia do interruptor faz você prestar tanta atenção nos colegas e inimigos no mundo de alcateias que isso o impede de ver o que está acontecendo na sua frente.
Quando o interruptor Solitário/Alcateia é posicionado em Alcateia,
ficamos obcecados por uma hierarquia social, que passa a nos controlar.
Agredimos aqueles que estão abaixo de nós, com medo de sermos rebaixados, e ao mesmo tempo fazemos o possível para bajular e criticar aqueles que estão acima. Nossos colegas oscilam entre “aliado” e “inimigo” tão rapidamente que deixamos de percebê-los como indivíduos. Eles se transformam em arquétipos de uma revista em quadrinhos. A única base constante de amizade acaba sendo um antagonismo compartilhado em relação a outras alcateias.
Sim, vou misturar metáforas de animais. Claro, acho que um gato
“domesticado” moderno é mais parecido com um lobo solitário do que com um integrante de alcateia, embora os gatos também se preocupem muito com estruturas sociais hierárquicas. Talvez os gatos tenham um interruptor de Orgulho, e viver com humanos tenha lhes dado a liberdade de diminuir a importância dos orgulhos. Quanto mais rico o território de caça, mais fácil é não ser um imbecil com os colegas. Passar a morar com humanos pode ter sido para os gatos o que a tecnologia avançada tem sido para a gente. Mais opções significam mais chances de não ser um troll. Pelo menos é isso que a tecnologia avançada geralmente tem significado no panorama mais amplo da história humana. A Bummer é uma exceção infeliz, uma maneira de usar a tecnologia para reduzir a liberdade humana.
O interruptor das pessoas deve ser mantido no modo Lobo Solitário.
Quando as pessoas atuam como lobos solitários, cada indivíduo tem acesso a informações ligeiramente diferentes sobre o mundo, e maneiras ligeiramente diferentes de refletir sobre essas informações. Venho falando sobre a relação entre a posição Solitário e o caráter pessoal, mas há outros motivos para manter o interruptor nessa configuração.
Considere uma demonstração que é feita com frequência no primeiro dia de aula de uma escola de administração: um professor mostra à turma um grande pote de jujubas e pede a cada um que estime o número total de balas.
A média de todas as estimativas geralmente resulta em uma cifra bastante precisa. Cada pessoa traz diferentes perspectivas, estilos cognitivos, habilidades e estratégias para resolver a charada, e a média chega a uma conformidade entre tudo isso. (A demonstração só funciona para respostas de um único número. Se você pede a uma comissão que crie um produto ou escreva um romance, o resultado sai como algo feito por uma comissão.)
Agora imagine que os estudantes só possam olhar para o pote por meio de fotos em um feed de alguma rede social. Diferentes grupos de pessoas com ideias divergentes sobre o número de balas se formariam e ridicularizariam uns aos outros. Serviços de inteligência russos postariam fotos de potes semelhantes com uma quantidade diferente de balas. Defensores das jujubas motivariam trolls a argumentar que não há balas suficientes e que é preciso comprar mais. E assim por diante. Já não haveria uma maneira de adivinhar o número de jujubas porque o poder da diversidade teria sido comprometido.
Quando isso acontece, os mercados já não são capazes de oferecer utilidade ao mundo.
Você pode substituir o pote de balas por um candidato às eleições, um produto ou qualquer outra coisa. Mas isso cria problemas que abordarei nos argumentos sobre como a Bummer destrói nosso acesso à verdade e ao significado.
Por ora, pense no pote desse exemplo como se fosse sua identidade,
conforme ela é apresentada nas redes sociais. Sua identidade é posta no modo Alcateia pela Bummer. Colocando-se ali, você está se apagando. Enquanto estiverem pensando por si mesmas, as pessoas adivinharão coletivamente o número de jujubas no pote, mas isso não funcionará se elas estiverem em uma alcateia e presas em uma identidade de grupo.
Há situações que demandam o interruptor no modo Alcateia. Unidades militares são o exemplo principal. Às vezes, as pessoas precisam se entregar a uma ordem hierárquica porque essa é a única maneira de sobreviver. Mas diminuir ao máximo esses momentos deveria ser um dos objetivos primordiais da civilização.
O capitalismo fracassa quando o interruptor está em modo Alcateia. Essa posição provoca bolhas e outras falhas de mercado. Certamente há empresários falastrões que preferem usar metáforas militares nos negócios; espera-se que você seja firme e implacável. Mas, como o modo Alcateia também o deixa parcialmente cego, a longo prazo esse tipo de personalidade não é bom para os negócios, se definimos negócios como sendo a realidade para além das competições sociais.
Ao agir como lobo solitário, cada pessoa está em uma posição única na sociedade e pensa de maneira exclusiva. Outro exemplo: eleições democráticas são uma mistura genuína de ideias e historicamente têm ajudado sociedades a encontrar caminhos para seguir adiante apesar das controvérsias, mas somente se as pessoas forem postas no modo Solitário. A democracia fracassa quando o interruptor é posicionado em Alcateia. Votações tribais, cultos à personalidade e autoritarismo são as políticas do modo Alcateia.
De início pode parecer uma contradição, mas não é; processos coletivos fazem mais sentido quando os participantes agem como indivíduos.

Você pode ler o livro inteiro aqui

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

L-dopa lança três títulos de ficção especulativa

L-Dopa

  A L-Dopa Publicações está lançando este mês uma nova série de livros, voltada para a ficção especulativa. Para quem não sabe, “ficção especulativa” é o termo anglo-saxão (agora incorporado em nossa língua) que engloba a ficção científica, a fantasia e o horror. São três livros por enquanto: “A Arma & outros contos” de Philip K. Dick (chamado de “Shakespeare da ficção científica”), “Juventude & outros contos” de Isaac Asimov (figurinha incontornável que publicou mais de 500 livros) e “O Apelo de Cthulhu” de H. P. Lovecraft (que todo fã de horror já ouviu falar e agora pode conhecer). São histórias repletas de naves e robôs, monstros e alienígenas, mas que também inspiram o leitor a especular sobre a realidade que nos cerca.



Philip K. Dick – “A Arma & outros contos”

            Philip K. Dick é considerado pelo crítico Frederic Jameson como o “Shakespeare da ficção científica”. Nesta antologia, o autor comparece com 8 contos de sua fase inicial da carreira. O texto que dá título à coletânea, por exemplo, é a história da tripulação de uma nave espacial que precisa descer num planeta destruído por uma guerra atômica; mas um dos canhões permanece funcionando, então como decolar novamente? O primeiro conto da antologia, “A Caveira”, trata da história de um assassino marciano que é enviado de volta no tempo para matar o fundador de uma igreja antes que ele se pronuncie. São histórias repletas de robôs, naves, alienígenas e alta tecnologia, mas o tempo todo Philip K. Dick está se perguntando pela natureza da realidade, sua preocupação maior. O livro acompaha ainda um posfácio com estudo de Nils Skare, tradutor do livro.

P. Lovecraft – “O Apelo de Cthulhu & outros contos”

   P. Lovecraft é sem dúvida um dos maiores nomes da literatura de horror, e conhecido por todos os amantes das histórias que inspiram medo. Seu “O Apelo de Cthulhu” é a história da descoberta de seres pavorososo que habitam nosso planeta desde tempos imemoriais, sendo sua existência comprovada por cultos maléficos ao redor do mundo. Chamamos a atenção nesta coletânea também para “A Cor que Caiu do Espaço”, um dos contos mais inventivos do autor, que fala sobre um bizarro meteorito que cai numa propriedade agrícola e espalha o terror – lentamente – pela região. O estilo de Lovecraft é marcado pelas revelações que se dão aos poucos. O livro acompaha ainda um posfácio com estudo de Nils Skare, tradutor do livro.

Isaac Asimov – “Juventude & outros contos”

       Isaac Asimov é uma das grandes referências da literatura de ficção científica de todos os tempos, tendo escrito em torno de 500 livros. “Juventude” é um conto em que o mestre se exercita na forma curta ao tratar de uma raça alienígena que aguarda a chegada de uma tripulação de outro planeta para criar uma rota de comércio que poderá salvar sua espécie da estagnação. O conto “Piadista”, por exemplo, também incluso na coletânea, fala sobre um supercomputador que é usado para descobrir a origem e a natureza das piadas – o resultado é assombroso. Como sempre em Asimov, os textos primam por uma clareza e transparência de estilo. O livro acompaha ainda um posfácio com estudo de Nils Skare, tradutor do livro.

Os livros podem ser comprados clicando em L-dopa

terça-feira, 11 de julho de 2017

Livro Teorema menor de Fabio Guadalupe

Teorema Menor, o livro que durante o seu processo de produção foi bloqueado pelo Google, são em torno de 50 poemas para serem apreciados que para as mentes mais caretas podem os considerar... "subversivos", mas se tiver uma cabecinha um pouco menos dodói, vão perceber que são só poemas.  Caso queira adquirir em formato físico o valor é de R$10, 00 (Dez Reais), basta fazer o pedido pelo nosso e-mail nacaraecoragem@yahoo.com.br.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Vinte mulheres incríveis no campo da música e da literatura

Resenhar sobre elas seria uma tarefa de meses, então segue dez musicistas femininas e dez literatas que escutei periodicamente e li entre 2014 e 2015. Recomendo para os cinco leitores deste blog. Lembro que no começo do ano a Lilian Campesato estava fazendo uma lista de artistas femininas dentro do campo noise, a lista passava de trezentas meninas, se você tem Facebook procure no perfil dela. Eu tinha esta lista, mas meu computador explodiu e perdi. 

Música 




Matana Roberts - desde que escutei seu disco Coin Coin Chapter one... Acompanho seu trabalho genial dentro da free-music. 




Virginia Genta - mulher italiana poderosa dentro do Free jazz com suas centenas de colaborações, extremamente barulhenta e inconformada. 





Margaret Chardiet - seu projeto The Pharmakon é uma maravilhosa porrada dentro da  eletrônica de potência. Seu dois últimos discos têm perspectivas femininas dentro desta seara inigualáveis. 





Diamanda Galás - herege e áspera. Vários de seus pronunciamentos repudiam a cultura pop. Defensora árdua de cultura das chamadas minorias. 





Carolina Maria de Jesus - fez sucesso com seu livro Quarto de Despejo que posteriormente virou disco. Maria de Jesus seria música e literatura de combate, nos mesmos campos de batalha de Lima Barreto, Facção Central ou As mães de maio. 





Abbey Lincoln - um dos ícones femininos dentro do jazz que lutou pelos direitos civis dos negros. Escutem o clássico em que ela participa com Max Roach, We Insist! - Max Roach's Freedom Now Suite, disco gravado na década de 60 cheio de mensagens políticas. 







Frederikke Hoffmeier - E seu projeto Puce Mary é uma viagem ruim sem rumo construído em uma eletrônica agressiva. Seus lançamentos até momento são com selos refinados como Freak Animal e Posh Isolation.





Junko Hiroshige - A deusa do Harsh Noise. Sou viciado em japanoise e acredito que o Hijokaidan seria bem menor se não existisse esta incrível artista com sua voz única. 






Nina Simone - é até constrangedor falar dela, pois já foi canonizada dentro do jazz e do mundo mainstream. No entanto, sua voz cativa e convida participar em uma excursão mental solitária e prazerosa aditivada com álcool. 





Lhasa de Sela - música profunda, sensível e cheia de territórios, Uma tristeza sem fim ter ido embora tão cedo deste planeta. 



Literatura 


Betty Friedan - Mística Feminina - "Contudo, permanece o fato de vivermos no mundo das realidades, do presente e do futuro imediatos, onde repousa a pesada mão do passado, um mundo onde a tradição ainda tem valor e os costumes exercem uma influência mais forte do que o teorista... um mundo onde a maioria dos homens e das mulheres casam e a maioria das casadas são donas de casa. Falar sobre o que poderia ser feito se a tradição e os costumes fossem radicalmente mudados, ou o que sucederá no ano 2000 pode ser um interessante exercício mental, mas não ajuda os jovens de hoje a ajustar-se à inevitabilidade da vida, ou a erguer seu casamento a um plano mais satisfatório."



Sylvia Plath - Ariel - 
Lady Lazarus
Tentei outra vez.
Um ano em cada dez
Eu dou um jeito –
Um tipo de milagre ambulante, minha pele
Brilha feito abajur nazista,
Meu pé direito
Peso de papel,
Meu rosto inexpressivo, fino
Linho judeu.
Dispa o pano
Oh, meu inimigo.
Eu te aterrorizo? –
O nariz, as covas dos olhos, a dentadura toda?
O hálito amargo
Desaparece num dia.
Em muito em breve a carne
Que a caverna carcomeu vai estar
Em casa, em mim.
[…]


Ana Cristina César - A teus pés - 

Casablanca

Te acalma, minha loucura!
Veste galochas nos teus cílios tontos e habitados!
Este som de serra de afiar facas
não chegará nem perto do teu canteiro de taquicardías...
Estas molas a gemer no quarto ao lado
Roberto Carlos a gemer nas curvas da Bahia
O cheiro inebriante dos cabelos na fila em frente no cinema...

As chaminés espumam pros meus olhos
As hélices do adeus despertam pros meus olhos
Os tamancos e os sinos me acordam depressa na
madrugada feita de binóculos de gávea
e chuveirinhos de bidê que escuto rígida nos lençóis de pano.

Clarice Lispector - A paixão segundo G. H. - "Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir – nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.”

Emma Goldman - O indivíduo, a sociedade e o Estado, e outros ensaios. "A mesma coisa se poderia dizer de todas as formas de ditadura, opressão e coerção, pois o que é a civilização? Todo progresso foi essencialmente marcado pela extensão das liberdades do indivíduo em detrimento da autoridade exterior, tanto no que concerne à sua existência física quanto à política ou econômica". 


Florbela Espanca - Poesia de Florbela Espanca - 

A Minha Dor

A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.

Os sinos têm dobres de agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal …
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias …

A minha Dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!

Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve … ninguém vê … ninguém …


Lionel Shriver - Precisamos falar sobre Kevin - "Mas ainda faltam dez anos, e são dias demais. Os anos eu consigo encarar, Eva, mas os dias, não."

Márcia Denser - Tango Fantasma - "E tudo isso quer dizer literatura: a requintada crueldade de poder observar atentamente as próprias vísceras expostas refletidas no espelho e imaginando não ser as nossas, como se este refletisse toda humanidade agora - a desumanidade estará dentro de nós, como o olho cego da câmera fotográfica, as lâminas frias da cortina que fecha e abre a objetiva, o vidro da lente, inopinadamente a sangrar, a sangrar, amigos, a sangrar, o fluxo maldito chamado literatura, a sangrar...".


Nise da Silveira - Jung vida e obra - "Considerado uma das melhores introduções ao pensamento junguiano, o livro, escrito pela renomada psiquiatra brasileira e aluna de Jung, Nise da Silveira, facilita o acesso à obra de Jung por meio de uma escrita clara e acessível ao leitor não especializado. A publicação traz, além de dados sobre a vida do psicanalista, um levantamento para a compreensão de sua obra".


Patrícia Duncker - Alucinando Foucalt -  "Você capta a matéria da história, eu capto a substância crua do sentimento"






















quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Tudo o que é grande se constrói sobre mágoa e a gênese da solidão.

Em outubro do ano passado conversei com Leandro Márcio Ramos, autor do livro de contos “Tudo o que é grande se constrói sobre mágoa”, seu livro de estreia, lançado pela editora independente Ugra Press. O livro foi lançado originalmente em 2011, teve uma segunda edição e atualmente encontra-se esgotado. Isso é bom, pois mostra que autores independentes têm público e, também ruim, pois quem não pegou este livro interessantíssimo com capa feita à mão, dificilmente encontrará algum exemplar por aí. Enfim...

"O homem por sobre quem caiu a praga da tristeza do mundo, o homem que é triste para todos os séculos existe e nunca mais o seu pesar se apaga! Não crê em nada, pois, nada há que traga consolo à mágoa, a que só ele assiste. Quer resistir, e quanto mais resiste mais se lhe aumenta e se lhe afunda a chaga. Sabe que sofre, mas o que não sabe é que essa mágoa infinda assim, não cabe na sua vida, é que essa mágoa infinda transpõe a vida do seu corpo inerme; e quando esse homem se transforma em verme é essa mágoa que o acompanha ainda!"   Augusto dos Anjos.

Quando terminei a leitura do livro foi com esta sensação descrita acima que fiquei imaginando o personagem M. O livro mostra as desventuras de um personagem, aparentemente, em uma cidade grande, com desejos que pulsam, mas que a realidade insiste em mostrar a contrariedade em estar vivo.

Leandro deixa de lado seu conhecimento musical* e foca apenas em literatura, e que literatura! Não se engane em acreditar que o livro é uma miríade de sucessivas desgraças, o autor também fala de forma franca de amor, tesão, liberdade, passado, e vamos encontrando brechas potentes onde podemos inferir uma rebelião exasperadora em querer demolir a contemporaneidade, esta vida contemporânea que nos mostra diariamente uma classe política essencialmente corrompida e com cada vez menos serventia, o miserável papel de uma elite pouco educada e nada comprometida com o bem comum, a decadência moral das religiões que em algum momento serviu como incubadoras de valores, a imersão cultural em que a causa principal é o consumo, a falta de mobilidade social, a impunidade como administração pública, uma partidocracia cada vez mais cínica e disfuncional e um sistema educacional público sem esperança.

Ramos não se prende em uma ou outra inspiração. O autor tem coragem, pois não se deixa ser caricaturado neste ou naquele pensamento, escola, paranoia. Sua escrita foge de amarras é desprovida de discursos de uma política só, e conseguiu ter uma essência toda costurada. Quem neste atual cenário filisteu conceberia histórias que intercalam Cioran e Cortázar, por exemplo? O autor não tem vergonha de dizer que odeia, mas também se apaixona, que é rude, mas também cede. Não seria isto uma verdadeira liberdade para o fracasso como dizia Hilst?

Certa vez eu escutei um diretor de cinema falando que “escrever era um ato solitário” e o que Ramos fez é praticar um ato solitário falando de solidão, mas não só, utilizando situações emocionais desconcertantes. Isto dá uma ideia geral da porrada de sua escrita.

Se você ficou interessado você pode ler os textos de Leandro Márcio no seu novo blogue http://comovoltarparacasa.blogspot.com.br/. E como lerá abaixo “Tudo que é grande se constrói sobre mágoa” é só o começo de uma longa guerra entre palavras.

*O autor teve papel relevante em bandas underground paulistana de música extrema.  




O Marcelino Freire quando publicou o primeiro livro que ele odeia e não recomenda ninguém comprar. Dizia que ele precisava expurgar, pois aquilo era uma exasperação. Recordo que você fala algo parecido, de por pra fora o desespero, o cansaço, parte daí você pensar em publicar um livro?

Especificamente esse meu primeiro (e por enquanto único) livro tem sim muito do ato do exorcismo, de expurgar demônios, de dar vida ao que pulsa por dentro. Eu não sabia que o Marcelino falava isso de seu primeiro livro, mas ele está certo: algumas das primeiras coisas que escrevi são patéticas. Tenho a felicidade de não as ter publicado, mas ainda as guardo em cadernos sebosos nas gavetas de casa. Um dia desses li o meu primeiro caderno de poesias, deveria ter uns 14 anos, e ele era cheio de versos apaixonados e rebeldes. Eu lia Rimbaud e Byron e Álvarez de Azevedo e estava com o coração virado para uma mocinha que não me dava a mínima, então pode imaginar o desastre. E junto com esses versos amorosos, outros de inspiração nitidamente punk, clamores por "liberdade" e "absoluto", cheios de imagens surreais. Alguns em verso livre, outros em rimas horrorosas, não importa: o resultado, embora impublicável, faz parte do exorcismo, de por para fora o que mastiga as vísceras e tira o sono.

Então eu sempre escrevi desse modo, de modo sentimental, e é desse modo a única maneira que consigo escrever. O que ocorreu com o passar do tempo é que, mesmo mantendo o ímpeto de escrever apenas em estados emocionais extremos, passei a ser mais exigente comigo mesmo, buscando formas mais adequadas de expressão - e então demoro mais para escrever, meu processo é lento, muito lento. No "Tudo o que é grande..." tratei então de compilar apenas os textos que achava mais representativos, aqueles onde os demônios estavam devidamente dilacerados. Ainda assim, reescrevi muitas partes de todos eles, para que a versão impressa fosse única, além de escrever o conto "O colecionador" especialmente para essa edição, e que jamais será publicado online. Considero, inclusive, esse conto como o perfeito exemplo do "exorcismo rebuscado" que busco hoje, em vomitar sentimentos e pensamentos de modo mais lapidado. Obviamente que muitos poderão se identificar e ver nos meus textos diversos sentidos - mas antes de qualquer coisa, escrever para mim sempre será um ato de egoísmo, de guerra contra mim mesmo.

Certamente tua narrativa tem um modo único. Explico, na primeira parte do livro nota-se que existe um diálogo com autores pessimistas como Cioran e Nitszche, mas no desenrolar dos contos, temos surpresas como referências ao Cortázar. A ideia era mostrar este transitar do narrador pela literatura em diferentes histórias e ânimos?

Não, isso ocorreu ao acaso. Quando surgiu a ideia de compilar os contos do blogue em um livro, busquei diferentes formas de organizá-los. Coloquei todos os textos em um único arquivo e fui lendo e revisando aquilo diversas vezes. Nessas incontáveis idas e vindas, percebi que alguns temas sempre se repetiam nos meus escritos; e discutindo com o Douglas e a Dani (o "casal 20" que comanda a Ugra Press) achamos que seria legal organizar os contos nesses eixos temáticos - que são "Cidade", "Mulheres" e (mais abstrato) "Mágoa". Os dezessete contos são divididos, portanto, por laços de afinidade com esses temas, que se repetem como uma obsessão no que escrevo. E esses temas estão presentes nesses escritores que você citou (e são todos eles grandes referências para mim, Cioran principalmente). Cortázar é um danado que me ensinou muitas coisas, e quando escrevi "Da sutileza de certos desejos" eu estava mergulhado na obra dele e, também, naqueles primeiros momentos do nascimento de uma nova paixão, então ele saiu com aquela tonalidade cor-de-rosa. Gosto muito dele. E é preciso esclarecer: mesmo escrevendo sob o tormento dos afetos, não necessariamente eles são feitos de dor. Os sentimentos que transbordam podem ser sublimes. E depois que os sentimentos são transformados em texto, são sublimados, deixam de ser tormento e viram registro. Mesclam elementos inventados com experiências e, no torvelinho do processo criativo, transformam-se em pura ficção - mas uma ficção em cuja veias corre um sangue feito de experiências cruas e extremas.


Na segunda parte me espantou positivamente a sensibilidade como são descritas as mulheres, mesmo no período de "secas". O personagem M. estaria mais para um romântico do "mal do século" ou apenas um cara contemporâneo com crises existenciais e problemas de ser amado em uma cidade grande? 

Estaria mais para uma mistura de tudo isso, uma espécie de "forever-alone do mal do século com crises existenciais", e que ainda por cima curtiu muito Sisters of Mercy, Bauhaus e Christian Death sozinho em casa quando adolescente. Não tem como negar as raízes, as primeiras coisas que escrevi foram justamente após a leitura de "Noite na taverna", e estão impregnadas daquela aura decadente que coloca a mulher em um pedestal e a realização amorosa como um absoluto.


Imagino que você tem uma ligação muito forte com a música, mas acredito que não existem conexões entre a música e a literatura em seu livro, estou certo ou errado?

Não, não existem, mas na primeira versão de "Cidade-orgia" eu fazia uma citação à música "I got erection" do Turbonegro http://dissolvecoagula.blogspot.com.br/2010/05/cidade-orgia.html . Na versão impressa, resolvi retirar. Mas acho que a ligação entre música e literatura rende muito. Estou escrevendo um romance agora e nele quero experimentar muito mais essas conexões com a música, que está presente em praticamente todas as horas do meu dia.

Recentemente você disse que o Dissolve e Coagula chegou ao fim, mas sua jornada literária terá outro nome, "Como Voltar pra Casa". Isto é um novo processo de criação para um novo livro?

Na verdade o "Como voltar..." não tem ligação direta com o processo de composição desse novo livro. Eu só queria sepultar de vez um blog que não estava mais sendo o foco de minhas atenções, e que registrou um percurso de minha existência. Talvez alguns elementos do blog se cruzem com os desse novo livro (que sei lá quando termino, sou leeeeeeento), mas a princípio é só a minha nova "casa" nessa nau de veneno chamada Internet.

 Terminando aqui, só mais uma pergunta, tenho sofrido bastante com este mar de lama virtual, o que você faz para filtrar tanta ignorância e o que recomendaria para as pessoas?

Eu não filtro nenhuma ignorância virtual - eu as absorvo, todas. Nunca bloqueei ninguém em redes sociais, mesmo aqueles mais imbecis e reacionários, até para saber o que se passa na cabeça geral desse tipo de palerma. Acho que a única forma de filtrar a lama virtual é, certamente, ficar fora da Internet. Não há escapatória. Já fiz minhas reclusões, farei outras certamente, mas anseio pelo momento de fazer a definitiva. Como o Drogo de O Deserto dos Tártaros, anseio pela minha batalha definitiva, nutro a esperança de uma mudança radical de hábitos. Se virá ou não, a minha sanidade mental comprovará.

Sobre recomendação, não sei o que dizer.  Recomenda-se em geral com um tom de "ei, faça isso, é legal, é bom" mas ultimamente não tenho feito nada, tenho apenas ficado quieto o máximo de tempo possível. Em todos os momentos que fiz algo me arrependi depois. Por isso, minha recomendação hoje é essa: não faça nada. Abdique da ação. Torne-se objeto e não mais sujeito. Desista e fique quieto, parado, curtindo o som de sua respiração, mergulhado em seus próprios pensamentos. Não tem nada lá fora, não tem nada aqui dentro.

Muito obrigado Leandro, por dispender um tempo.
Cara foi um prazer enorme. Sinto-me honrado de verdade.




sexta-feira, 4 de abril de 2014

Para Ler o Pato Donald - Comunicação de Massa e Colonialismo

Paranoia socialista, obra idiota esquerdista! Esses são apenas um dos vários adjetivos que os autores marxistas angariaram nos mais de trinta anos de lançamento desta obra. 
Os autores analisam um dos mais poderosos veículos da comunicação de massa, os quadrinhos, que se transformam em desenhos animados nas salas de cinema e na televisão, gerando inúmeros outros produtos. Reconhecendo a importância dessa indústria cultural, eles apontam o seu símbolo máximo, Walt Disney, examinando minuciosamente a influência exercida pelos personagens disneianos na educação e no relacionamento social de crianças de todo o mundo.
É notório como a Disney produziu conteúdo ideológico pró-Estados Unidos. Duas situações emblemáticas são o Pato Donald vivendo sob o regime nazista e por fim acordando do pesadelo e vendo deslumbrado a Estátua da Liberdade, a criação de personagens como Zé Carioca que é visitado por Pato Donald  no Brasil, Ganchicho Voador na Argentina e Panchito no México. 

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Teoria da vanguarda de Peter Bürger

Em diálogo com Lukács, Adorno e Benjamin, o estudioso alemão revisita as teorias estéticas de Kant, Schiller e Hegel para propor, à luz da Teoria Crítica, uma nova compreensão dos movimentos artísticos radicais do início do século XX, sobretudo o dadaísmo e o primeiro surrealismo. Mais do que a análise de movimentos específicos, esta obra criou novas categorias e tornou-se um marco não só para os estudos das vanguardas, como para a própria teoria da arte.

A discussão das idéias de Bürger segue hoje tão válida e pertinente como o foi em 1974, resistindo à passagem do tempo e instigando a discussão sobre as práticas artísticas do segundo pós-guerra. Livro obrigatório em bibliografias sobre o tema.