terça-feira, 4 de outubro de 2016

O sangue no show de rock como dispositivo de confronto

Trabalho acadêmico de Diego Carvalho*


O confronto O show de rock pode ser um dispositivo de confronto. O confronto, como diz Fabrício Silveira (2015), é quando o show se torna algo que transcende a performance, que vai além dos limites, e que por isso, afeta o público de uma maneira especial. [...] um dos maiores prazeres proporcionados por um show de rock é o de reconhecê-lo como um dispositivo de confronto, entendê-lo e poder atuar nele, mover-se no seu interior, experimentando seus contornos e seus limites, deixando-se capturar, surpreendendo-se, uma vez e outra, e mais outra, sofrendo-o, muitas vezes, testando sua força e sua topografia, certificando-se de que é possível atravessá-lo e sobreviver em paz. (SILVEIRA, 2015, p. 14) O confronto nos shows diz respeito a afetos ativados como a agressividade, um certo tipo de loucura, inconsequência ou como diz Silveira: “Brutalidade. Idiotia. Fanatismo. Impulsos assassinos [...] um abandono da civilidade [...] um flerte contínuo com a morte” (2015, p. 4). Esses afetos estão envolvidos nas experiências proporcionadas pelo rock. Ouvir um disco de rock é algo agressivo, pela sonoridade e letras. A vida dos integrantes das bandas de rock, tão cultuada pelos fãs, é uma a vida dos excessos: noites regadas a drogas, semanas sem dormir, sexo com uma infinidade de mulheres, as prisões. O show é o momento de confraternização, quando os músicos se aproximam do público. Quando um jovem ouve um disco, quando ele se droga como seu artista preferido, quando vai num show e excede, mesmo que o disco, o estilo de vida dos músicos e os shows sejam produtos, há uma crença envolvida, um certo tipo de pureza até. Silveira trata dessa pureza, de um certo romantismo necessário para se pensar no show de rock: Compreendê-lo assim, por certo, é dar forma a uma narrativa heroica, é alimentar um relato quase mítico. É assumir o risco de parecer nostálgico. É superestimar o que talvez não seja mais do que apenas uma tradição muito localizada, minoritária, uma potência contida. De todo modo, para que possamos salvá-lo, para que possamos ainda acreditar nele – e acreditar, consequentemente, na época que nos constituiu –, é fundamental que possamos [...] enxergar num show de rock um dispositivo de confronto, uma moderna máquina de guerra. (SILVEIRA, 2015, p. 2- 3). Um disco pode confrontar pela capa e pelas letras. Uma entrevista com um músico pode chocar pelo seu teor. Porém, essas mídias, junto com as gravações de vídeo, mesmo que confrontem, não possuem a potência de um show. A mídia esfria o contato entre público e músicos. O contato, no show, toma diversas formas: olhar de perto os músicos; tocar neles; os músicos reconhecerem a plateia, trocarem olhares. Também o palco italiano pode se romper e não mais haver tanta distinção entre público e banda. Nessa ruptura, é mais comum o confronto. O típico show tem uma estrutura, uma organização, um horário para começar e acabar, um set de músicas, e a separação entre plateia e músicos. Há uma normalidade. Me interessam os shows em que o normal, o sadio, o aceito, são confrontados. Aqui trato do show de rock como confronto típico de certos estilos, que têm algo de violento que os atravessa percebido na sonoridade, tipo de público, letras, ideário, estética. Há um comum entre muitas bandas em suas apresentações, que não diz respeito a segmentos definidos. Os principais elementos de confronto concernem aos corpos e aos seus fluxos. São comuns em shows – que podem explodir como uma bomba – artistas notadamente bêbados e narcotizados, felação encenada, agressões verbais dos músicos com a polícia e os seguranças, os pulos do palco, homens vestidos de mulheres, homens nus, mulheres nuas, a nudez misturada com violência. Se soma a isso os fluxos corporais: suor, sangue, vômito, catarro, fezes. Esses fluxos podem ser trocados entre músicos e plateia ou entre os membros da plateia, ou serem expostos pela banda. Boa parte disso tudo confronta principalmente com a moral e os bons costumes. Alguns exemplos de performances que excediam: era comum Axl Rose, na época em que era vocalista dos Guns N’ Roses, pular na plateia e a atacar. Sebastian Bach, do Skid Row, fazia o mesmo. Kurt Cobain, em uma edição do Hollywood Rock, estava visivelmente drogado. Ele era viciado em heroína. Alguém havia lhe dito que a emissora que iria cobrir o show era um monopólio opressor. Cobain, ao som do baixo e da bateria, dança na frente das câmeras, bem próximo, e mostra o pênis. Ele acaricia a câmera com o pênis visível. O Red Hot Chili Peppers, uma banda com uma pose máscula e sensual, não sendo raro os membros praticarem nudez ao vivo, no Woodstock de 99 percebem focos de incêndio na plateia. Então, tocam a música Fire de Jimi Hendrix o que atinge os ânimos do público o qual destrói praticamente tudo, também, posteriormente foram feitas denúncias de estupro. Jim Morrison em suas apresentações sempre atraia a polícia e ele foi preso por incitar desordem pública, nudez e felação. Iggy Pop, citado por Fabricio Silveira (2015), como ícone do confronto, não tinha pudores e vomitava em pleno palco devido a seu consumo de heroína. Renato Russo atacava o público, brigava com os seguranças. Em um show em Brasília, ele os afrontou chamando-os de “babacas”. O mesmo Renato, foi alvo de um fã que subiu ao palco e o estrangulou. Genesis p Orridge criava performances que rompiam com a divisão plateia e banda, e era muito comum nudez nos shows por parte de ambos. Bowie, que usava trajes femininos, simulava felação com seu guitarrista em suas apresentações. Cherie Currie vocalista da banda Runaways, usava nos shows vestes íntimas ainda muito nova, nos anos 70. O refrão de uma das músicas que ela cantava era: eu sou uma bomba de cereja. Ou seja, uma linda garota, seminua dizendo que ela era algo doce e saboroso a ser comido. Para pensar em um elemento de confronto no show de rock, o sangue, e compor este texto, percorro uma escrita livre que mistura ensaio, crônica e artigo. A crônica tem que estar presente, pois trago lembranças pessoais, portanto, não posso fugir dela, mas não é uma crônica este texto, mas, sim, algo entre esses três estilos. A metodologia acionada não é dura. Ela diz respeito principalmente a minha relação com a música. Sou fruidor ativo de rock desde os 10 anos de idade. Desde então, sempre fui receptor de todas as mídias que envolvem o rock: revistas, discos, livros, shows gravados. Além disso, ao longo da minha vida assisti muitos shows ao vivo e convivi com pessoas do meio musical como djs e músicos. E tudo isso está marcado em minha memória. Quanto ao arsenal teórico, além do artigo de Fabricio Silveira (2015) centrado no conceito de show de rock como dispositivo confronto – esse conceito muito bem construído, pronto para ser apropriado, que me interessou e muito e me forçou a pensar, me impulsionou a continuar seu trabalho, por outras vias, mas parecidas – além desse trabalho de Silveira, utilizo um conceito de Deleuze e Guattari. Ao pensar sobre o show de rock, que tem como matéria corpos e fluidos, relacionei-o diretamente com o conceito de Corpos sem Órgãos de Deleuze e Guattari (1999). O Corpo sem Órgãos (que será destacado mais adiante) é um platô, uma zona, um território preenchido por fluxos; um corpo que deseja além da organização dos órgãos; um agenciamento sem hierarquias. O sangue na cultura pop O sangue, como elemento do confronto, é fundamental aqui pela sua centralidade no show. É mais comum que sêmen, fezes, fluxo vaginal, vômito. Menos comum que suor, sempre presente na plateia, que troca entre si esse fluido, mas o suor não confronta. De todos os fluidos, o sangue é aquele que só é despejado para fora do corpo em situação de anormalidade. Tem algo de especial em fazer o sangue sair, fazer uma ruptura; aquilo que deve ficar dentro é posto para fora. Não é anormal a ingestão de sêmen na prática de sexo oral; o mesmo em relação ao liquido menstrual e a secreção vaginal. A urina é objeto de fetiche no Golden shower: banhar-se de urina. As fezes são também objetos fetichistas, na chuva negra e nas práticas de enema. Pode-se citar também o beijo grego, cuspir no outro, uma outra tática para se criar um território sexual. Mas a carga simbólica do sangue, do corte, talvez seja a mais extrema, pois não há a “chuva vermelha” – todos os outros fluidos são aceitáveis, mesmo que em subculturas. E é no rock, no show, não nas práticas sexuais que o sangue se torna um elemento significativo. Me interessa muito mais a violência para si, simbolizada no corte, do que a violência contra o outro. Interessa também a violência para si que envolve o outro, mas não a violência fascista ou Estadista, diferentes do hedonismo do rock. O sangue que sai do corpo, a partir do corte voluntário, é parecido com o esperma que sai do pênis; parecido, e o corte pode ser um tipo de gozo – mas que foge da normalidade. É o último suspiro de vida do sangue antes dele secar. Quando a ferida está aberta se percebe o sangue fluir, algo vivo, que aos poucos morre. O sexo é como o show: envolve corpos em um espaço. Os corpos, em ambos, descarregam sangue, suor, saliva e tantas outras coisas. Porém no rock, essa violência hedonista é mais comum sempre entre homens, o que aproxima o show de rock da homossexualidade. O pênis talvez não fique duro, mas os músculos se enrijecem, não há esperma, mas sangue. Há a dor do corte. Mas é uma dor suave; talvez incomode mais a cicatrização, que causa coceira e a casca que tem um coloração mais purulenta. Muito mais importante é ver o sangue, senti-lo na pele escorrendo, até mesmo lambê-lo. Ninguém se assusta quando está fazendo uma tatuagem; e ela é um corte, contínuo, doloroso, mas é mais que suportável. Quem pratica esportes se corta, quebra os ossos, o corpo está sempre cheio de hematomas, pode enfrentar cirurgias. As mulheres, os homens e as crianças fazem plásticas, que é algo doloroso também durante o tempo de cicatrização. Ou seja, há uma normalidade na mutilação, no corte, no sangrar, mas no palco, quando isso acontece se foge da normalidade. São poucos os shows que o fazer sangrar é aceitável. O sangue é importante na cultura principalmente pelas doenças relacionadas a ele: a sífilis, a hepatite, a AIDS. A sífilis era ligada àqueles que tinham uma sexualidade livre. A hepatite e a AIDS são símbolos dos drogados e dos desvios sexuais. As três doenças atingiram muitos músicos e artistas. Quanto à AIDS, o interessante dela é que é um comum que aproxima gays, héteros, mulheres, usuários de drogas. Sim, é um fantasma que bloqueia fluxos, na forma do medo de contrair a doença. Mas se tem algo de positivo é isso: a doença não é sexista, moralista, ela pode atingir qualquer um. O bom da morte é não morrer mais, como diz um personagem do filme Acossado de Jean-Luc Godard. O bom de ter AIDS é não mais se amedrontar com a possibilidade de a contrair. Um dos símbolos venerados por segmentos do rock é o vampiro. O vampiro noturno que vive da vida dos outros, do sangue de suas vítimas. O vampiro não come, não se preocupa com sexo, o sangue é seu alimento e o contato mais importante com o outro é a mordida. Sempre há algo de sanguíneo, vampiresco, no sexo, mesmo que seja pouco notável: os lábios mordidos que podem sangrar, a mordida no pescoço que quase sangra, a ruptura do falo, do ânus, do sulco vaginal. O vermelho é a cor da paixão e o sexo algo violento. O vampiro é um viciado em sangue. O vampiro é um monstro sensual que causa excitação e medo. O vampiro do filme Drácula de Bran Stoker foi representado por Gary Oldman o qual fez o papel de Sid Vicious em Sid e Nancy. Este último filme trata da relação de amor e ódio entre o baixista do Sex Pistols e uma groupie. Vicious foi um dos mais importante músicos confrontadores. No palco ele não tinha pudores quanto ao seu corpo, se cortava, se agredia, ao ponto de ficar totalmente ensanguentado. Por coincidência, Klaus Kinski, ator e performer, um confrontador em suas performances, foi o vampiro Nosferatu no filme de mesmo nome dirigido por Werner Herzog. Kinski em leituras de poesias suas atacava o público que frequentava esses eventos para ver sua fúria. O sangue está presente na cultura pop em geral, mas principalmente no rock. Burroughs, o pai dos beatniks, viveu a vida usando heroína injetável. Ele detalha como fazer um furo no músculo, com um alfinete, para impor a droga ao sistema sanguíneo. Muitos livros de Bukovski foram adaptados para o cinema. Em um deles é narrada sua paixão por uma prostituta. O filme mostra o lado masoquista da prostituta, a qual em muitos momentos se corta seriamente. Em Mate-me por Favor (2013), o grande livro sobre o punk nova-iorquino, se comenta em detalhes o uso de heroína por parte dos Stooges. No banheiro da Fun House, a casa da banda, eles injetavam a droga e banhavam as paredes de azulejo com o sangue que restava nas seringas. Ainda em Mate-me por Favor, há partes que tratam das tentativas de suicídio de algumas groupies a partir de cortes nos pulsos. Dead, vocalista do Mayhem, se suicidou e o baixista da banda tirou fotos do corpo; as fotos se tornaram a capa de um dos discos do Mayhem. Dead se matou com um tiro na cabeça. Na capa vê-se o corpo no chão, com a cabeça aberta e repleta de sangue. Handsome Dick, cantor dos Dictators, foi alvejado com um pedestal de microfone pela performer Jayne County. Ela estava se apresentando e Dick a insultou, o que levou Jayne a desferir um golpe que quase matou Dick. Após o fato, County continuou o show cantando um música que possui como trecho a seguinte frase: lave-me senhor no sangue do rock n’ rool. Dick havia ficado ensanguentado e a música foi uma forma de humor negro. Tony Wilson, empresário do Joy Division assinou o contrato da banda com seu próprio sangue. Isso foi registrado nos filmes Control e 24h Party People. O rock portanto, é uma cultura do sangue, sanguinolenta, violenta, mas muito hedonista. Violência que é alegria como no filme o Clube da Luta, no qual os personagens lutavam entre si e, obviamente, se ensanguentavam em lutas que eram rituais. Saltar sangue como se salta esperma. Um gozo. O sangue presente, a dor e o medo. O corte é a linha de fuga; nele se busca uma diferenciação do funcionamento do corpo, tornando o dentro em algo fora. Corpos sem órgãos e shows O Corpo sem Órgãos (CSO) não é o corpo estratificado. O CSO é atualizado a partir de fluxos que envolvem sujeitos, mas não é pertencente ao sujeito. Ele diz respeito a corpos, fluidos, instrumentos, animais, ao que for somado para produzir um agenciamento corporal não organizado. Porque o CsO é tudo isto: necessariamente um Lugar, necessariamente um Plano, necessariamente um Coletivo (agenciando elementos, coisas, vegetais, animais, utensílios, homens, potências, fragmentos de tudo isto, porque não existe "meu" corpo sem órgãos, mas "eu" sobre ele, o que resta de mim, inalterável e cambiante de forma, transpondo limiares). (DELEUZE, GUATTARI, 1999, p. 24) Deleuze e Guattari citam tipos de CSO’s. Para o “corpo masoquista” se necessita de um programa, não de uma encenação, que busca novas funções para os órgãos. Esse corpo é preenchido por ondas doloríferas. O “corpo drogado” depende da droga, das veias, das intensidades – grau zero – dos devires permitidos pela droga, dos sujeitos, que são elementos do corpo. O que passa em ambos corpos não é as ordens dadas pelo organismo, este não mais importa, e sim os fluxos. Penso no show de rock não como encenação em um palco para uma plateia, o que seria um corte binário, mas no confronto que quebra o corte. O show como confronto envolve plateia, músicos, os corpos de ambos, instrumentos, música, fluxos, fluidos. Se há regras – a música que toca, o roteiro, os instrumentos que são manejados, um início e um fim – estas são as estratificações do show. A desestratificação do show de rock, ele como um CSO, acontece no confronto. Então há o show e há o confronto, o estrato e o CSO, um tomado no outro. O organismo não é o outro do CSO, o primeiro é a experiência comum, o segundo é a experimentação: O organismo não é o corpo, o CsO, mas um estrato sobre o CsO, quer dizer um fenômeno de acumulação, de coagulação, de sedimentação que lhe impõe formas, funções, ligações, organizações dominantes e hierarquizadas, transcendências organizadas para extrair um trabalho útil. (DELEUZE, GUATTARI, 1999, p. 21) Muito se passa além dos estratos no show, e é esse além o que realmente enriquece o show de rock. É show, mas é sexo, é violência, é drogadição, é confronto, é loucura; o que é? É CSO. O show organizado coloca cada um em seu papel, numa via calma: música e músicos e ovação da plateia. Quanto menos isso seja interferido mais ele se realiza. No confronto, o que se quer é o que foge da regra. Às vezes, explode naturalmente, ao acaso. Às vezes, se sabe o que vai encontrar como o caos de GG Allin. Silveira expõe a desestratificação nos shows de Iggy Pop: Há violência, há ódio, há hostilidade entre o palco e a plateia. Há uma tensão regulada, prestes a estourar. Bangs se recorda de ter presenciado apresentações interrompidas na metade, suspensas enquanto fãs e/ou músicos se envolviam em brigas e pancadarias desmedidas, relativamente incompreensíveis e assustadoras. (SILVEIRA, 2015, p. 4) O show como confronto é algo sempre corporal, porque o que circula são fluxos dos corpos: é o soco e o chute na dança da plateia, a cusparada dos punks, o vômito de Iggy Pop, o sangue e as escoriações sempre presentes, a merda de GG Alin, o gozo no palco do vocalista dos Dead Boys (ao receber uma chupada em pleno show), o onanismo (Cobain e Morrisson), a felação (Morrison e Bowie), o suor da plateia aglomerada se tocando e até mesmo a menstruação, quando um membro da banda feminina L7 retira o absorvente usado e joga na público. E tudo isso não é encenação, é a tentativa de se produzir novos signos, formas, compondo uma performance que se extrapola, o confronto, o CSO. Deleuze e Guattari explicam que deve-se perguntar referente aos CSO’s: “1) Que tipo é este, como ele é fabricado, por que procedimentos e meios que prenunciam já o que vai acontecer; 2) e quais são estes modos, o que acontece, com que variantes, com que surpresas, com que coisas inesperadas em relação à expectativa?” (1999, p. 12). O tipo aqui é o show de rock como confronto. Ele é fabricado a partir da música e dos corpos num espaço coletivo. Em shows de bandas confrontadoras se vai, como disse acima, pois se tem uma ideia do que acontecerá; mas não se sabe exatamente – o confronto é como uma bomba que pode explodir a qualquer momento. O confronto se dá principalmente, como também já disse, quando os dois estratos – plateia e banda – se misturam, se atravessam, e eles rompem com uma normalidade aceitável. O mosh (pulos do palco), os xingamentos, as cusparadas, os arremessos de objetos, as brigas, são comuns em certos segmentos, como o punk. Poderia se dizer: o show punk é em essência um CSO? Deleuze e Guattari explicam o corpo masoquista em Mil Platôs, como ele é fabricado, a partir de um programa, a desestratificação do corpo que envolve atar o outro, o chicotear, costurar seus membros: "Senhora, 1) você pode me atar sobre a mesa, solidamente apertado, de dez a quinze minutos, tempo suficiente para preparar os instrumentos; 2) cem chicotadas pelo menos, com alguns minutos de intervalo; 3) você começa a costura, costura o buraco da glande, a pele ao redor deste à glande, impedindo-o de tirar a parte superior, você costura o saco à pele das coxas. Costura os seios, mas com um botão de quatro buracos solidamente sobre cada mama. Você pode reuni-los com um suspensório. Aí você passa à segunda fase: 4) você pode escolher virar-me sobre a mesa, sobre o ventre amarrado, mas com as pernas juntas, ou atar-me ao poste sozinho, os punhos reunidos, as pernas também, todo o corpo solidamente atado; 5) você me chicoteia as costas as nádegas as coxas, cem chicotadas pelo menos; 6) costura as nádegas juntas, todo o rego do eu. Solidamente com um fio duplo parando em cada ponto. Se estou sobre a mesa, você me ata então ao poste; 7) você me chicoteia as nádegas cinquenta vezes; 8) se você quiser reforçar a tortura e executar sua ameaça da última vez, enfie agulhas nas nádegas com força; 9) você pode então atar-me à cadeira, você me chibatei-a os seios trinta vezes e enfia agulhas menores, se você quiser, pode esquentá-las antes no fogo, todas, ou algumas. A amarração na cadeira deveria ser sólida e os punhos amarrados nas costas para estufar o peito. Se eu não falei sobre as queimaduras é que devo fazer em breve uma visita e leva tempo para curar." (DELEUZE, GUATTARI, 1999, p. 11-2) De forma parecida com o programa masoquista, Silveira (2015) expõe o funcionamento dos shows de GG Allin, preenchidos de fluidos como sangue e merda. O local é a casa noturna, há os instrumentos, músicos e plateia, e o que se passa com estes são os fluxos do CSO. GG Allin é exemplar, pois, como diz Silveira abaixo, foi o mais ultrajante performer: Mas quem foi Mr. Allin? Mr. Allin foi um artista do escárnio, um punk excremencial. Foi o protagonista das mais bizarras e ultrajantes performances rockeiras de que se tem notícia. Auto-mutilação, coprofagia, atentado violento ao pudor, posse ilegal de armas, desrespeito à ordem pública – era possível encontrar de tudo em seus shows, em fartas proporções. Havia também nudismo, drogas, muitas bebidas, palavrões, sangue, insultos de roldão, mais bebidas, mais sangue e um básico punk rock mal-tocado. Musicalmente, nada relevante. Excetuando-se, claro, a índole suicida, o comportamento aberrante, a selvageria e os surtos psicóticos. Um cartel de perversões. (SILVEIRA, 2015, p. 11) A merda em GG Allin é o fluido mais chocante, que mais causa mal estar em suas apresentações. É a sujeira, o resto, o lixo do corpo humano – mesmo que seja um dos elementos de certas práticas sexuais e seja importante entre os homossexuais masculinos. O confronto a partir dos corpos e fluidos sempre atinge a moral e os bons costumes. Há um lugar especial para se defecar de forma solitária, um banheiro, mas com GG Allin o palco era o lugar. A banda Shining, um dos expoentes do chamado Metal Suicida, tem o elemento do sangue nos shows. A banda propõe um erotismo violento a partir do corte do corpo. O prazer em se cortar, ver o sangue, o que na banda tem relação com o suicídio. O vocalista, como a plateia, comumente nos shows está ensanguentado. Aliás, a partir de corte sobre corte, o frontman, recria sua pele, que parece uma pele de lagarto. A banda dá um importante destaque para a música, com a mistura de jazz e black metal. O vocalista é bonito. Ou seja, os shows são violentos, pelo sangue, mas também fruitivos e sensuais. Portanto, a violência melódica sonora, a sensualidade do vocalista, o corte que ele faz em si mesmo e a repetição disso pela plateia produz o CSO. Deleuze e Guattari tratam da morte, do morrer, como algo negativo; eles expõem que a experimentação pode ultrapassar seu limite. Os autores comentam a necessidade de prudência nas experimentações, ao se traçar linhas de fuga. Quanto ao show como confronto, o qual muitas vezes o risco de morte está presente, Silveira frisa a importância de manter um grau de ilusão para sair ileso, vivo. Em maior ou menor grau, há um abandono da civilidade, há um flerte contínuo com a morte [...] Mas este é também um flerte cínico, uma possessão regrada: ao final, embora feridos, extasiados, aos prantos, muito(s) bêbados, todos ou quase todos, geralmente, voltam para casa. É uma falsa mágica, portanto. Uma falsa mágica vivida intensamente, com ardor. É fundamental acreditar nela, levá-la existencialmente a sério. Em alguma medida, ela estará sempre presente. Caso contrário, estaremos diante de um espetáculo de outra natureza, o encantamento terá se dissipado e a ilusão da transcendência terá se perdido, forçando-nos tristemente, quase sem apelo, à verdadeira e inquietante animalidade da qual buscamos fugir. (SILVEIRA, 2015, p. 4) Exemplifico a construção de um CSO, a partir de um programa em detalhes: a letra da música Facada leite Moça de Fausto Fawcett. Nela há a narração de uma performance suicida que é registrada com a intenção de se criar um pôster hiper-realista; ou seja, é uma performance, porém o público não pode contemplar ao vivo, apenas no registro. A cena de suicídio, desse tipo, é algo impossível de ser praticado em um palco, quase impossível de ser realizado na vida real, por isso, é na ficção que a cena se realiza. Fausto não quis que seu personagem fizesse isso em um palco, pois como eu disse, isso se afastaria ainda mais da realidade. É o confronto máximo que diz respeito à morte, o limite transposto do CSO, o além do show como dispositivo, o fora do show; mas é uma ilusão, pois acontece apenas na arte, na letra, na mente de Fausto. Agora Viviane vai na direção de sua residência que fica no sótão de uma estufa artificial onde cientistas vegetais pesquisam plantas carnívoras. Eles passam botanic spray nas pétalas que mordem. Viviane atravessa a estufa e chega no sótão. Toma uma decisão olhando pruma faca vibradora. Pega o telefone, liga pro seu empresário, pro seu advogado e pro delegado mais próximo. Pede pra eles estarem dali a meia hora na sua residência. Pede pro empresário transformar o que encontrar num pôster hiper-realista. Desliga o telefone. Tira a roupa. Coxa de quem faz jazz. Lambuza o corpo com leite condensado. Coloca dez polaroides disparadas em volta da sua cama rosada. Apanha sua faca vibradora preferida e começa. Facada um, facada dois, facada três, facada quatro até chegar no coração, facada cinco. Facada Leite-Moça Facada Leite-Moça Meia hora depois chegam o empresário, o advogado e delegado que diz o seguinte: “Eu nunca vi um corpo-delito tão lindo quanto esse.” Cabeleira loura entremeada por tranças de poliuretano vermelho, boca carnuda ideal pra batom forte, escorpião tatuado na base da espinha, coxas de quem faz jazz, imensos olhos azuis.1 O espetáculo do pôster hiper-realista: Viviane sabe que será vista, quer construir uma cena o mais sexy e chocante possível, quer fazer algo extremo, inaceitável. Seu corpo, sua faca vibradora, seu leite-moça, as polaroides, e a facada (leite-moça). O leite-moça deve se misturar com sangue o que cria, provavelmente, uma mistura doce e talvez até saborosa. O voyeurismo de Fausto e dos que ouvem a música, impõe o desejo de estar junto com Viviane, transar com seu corpo ensanguentado e com leite moça; como diz o delegado: nunca vi um corpo delito tão lindo. O território corporal é aumentado com um novo fluido. 
Considerações finais:
O show de rock portanto é tanto um estrato quanto um CSO. Ele estoura em determinados momentos criando o confronto. Um dos elementos do confronto é o sangue. O confronto não se fecha em gêneros definidos, sendo mais comum em alguns performers carismáticos. O show de rock reúne vários CSO’s: drogado, masoquista, esquizo. Muitas vezes ele chega perto da morte, ou a morte é evocada como nos shows da banda Shining. O além do limite, a morte, é realizado na ficção como no show registrado de Viviane na letra de Fawcett. A narração é fictícia, mas mostra a relação do rock com o sexo, o sangue e a morte: o desejo de que o show se exceda ao extremo. O que as bandas que confrontam mostram é a relação diferencial com o corpo, algo central no conceito de CSO de Deleuze e Guattari. Foucault comenta a importância dessas relações diferenciais, de se criar outros prazeres além dos dominantes, como transar, comer, beber: É exatamente isso. A possibilidade de utilizar nossos corpos como uma fonte possível de uma multiplicidade de prazeres é muito importante. Se consideramos, por exemplo, a construção tradicional do prazer, constata-se que os prazeres físicos, ou os prazeres da carne, são sempre a bebida, a comida e o sexo. É aí que se limita, penso eu, nossa compreensão dos corpos, dos prazeres. (FOUCAULT, 2004, p. 5) 2 As bandas tornam aquilo que não é praticado na vida cotidiana, aquilo que causa desconforto e mal estar, que confronta, em prazeres diferenciais coletivos. Elas aumentam os territórios dos corpos; mostram novas formas de vida, mesmo que dramáticas, sofridas, nauseantes, quase insuportáveis; e mais, criam novos signos nos quais a dicotomia prazer e dor é rompida.

Referências:

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. Rio de Janeiro: Editora 34, 1999. v. 3. FOUCAULT, Michel. Michel Foucault, uma entrevista: sexo, poder e a política da identidade. In: Revista Verve, 5: 260-277, 2004. Disponível em: http://revistas.pucsp.br/index.php/verve/article/viewFile/4995/3537 MCCAIN, Gillian; MCNEIL, Legs. Mate-me Por Favor. Porto Alegre: L&PM, 2013 SILVEIRA, Fabrício Lopes. Show de rock como dispositivo de confronto. Trabalho apresentado ao Grupo de Trabalho Comunicação e Experiência Estética do XXIII Encontro Anual da Compós, na Universidade Federal do Pará, Belém, de 27 a 30 de maio de 2015.

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